O Graal de Saint-Michel-en-Grève

15/05/2015 21:17

Saint-Michel-en-Grève é lugar bretão testemunho flagrante da substituição quase abrupta do culto primitivo às divindades ancestrais por outras novas cristianizadas possuídas de atributos idênticos aos daquelas. É assim que aparece aqui São Miguel ocupando o lugar original do deus celta Lug herdeiro da tradição de Dagda ou Daga Devos, o “deus bom”, dos Tutha-de-Danand.

Na igreja de Saint-Michel-en-Grève suspeita-se que o beatíssimo São Miguel vencendo aos pés o Demónio emblemático da heresia e das crenças heréticas, como se vê no seu altar, poderá muito bem ser a imagem substituta do primitivo deus Lug, e que o Demónio vencido possa ser a figuração diabolizada pelas forças dominantes do império latino da primitiva religião celta.

Essa transformação cultual de Lug em Miguel representa-se na águia esculpida no altar a qual significativamente foi um dos símbolos desse deus da primitiva religião solar celta, sendo ela mesma símbolo eminentemente solar, emula da ave Fénix que ressuscita das suas próprias cinzas ao calor do Sol. Sendo subsidiariamente símbolo imperial, e nos santos sinal de adscrição a uma concreta mística activa capaz de superar todos os embaraços que possa antepor-lhe o mundo profano. O seu domínio é o do ar, ou seja, o dos céus que conquista nos quais carece de rivais. A águia é a excelsa mensageira de Deus, e considera-se mensageiro de Deus quem a tem como atributo ou sinal, como Mikael ou Lug.

Na base da arcada dentro da igreja de Saint-Michel-en-Gréve, aparece o relevo do Cálice Eucarístico, de forma súbita um tanto inusitada. Objecto litúrgico cristão expressa aqui a memória dum outro similar ancestral: o caldeirão de Dagda. Tal caldeirão tinha propriedades “mágicas”, isto é, terapêuticas e espirituais.Terapêuticas por os Tuatha-de-Danand possivelmente servirem-se dele para fabricar medicamentos herbários; e espirituais pelo significado transcendente do objecto pomo central da função sacerdotal assegurada pelo deus Dagda, justamente até aparecer na forma de Lug entre os celtas bretãos. O “caldeirão mágico” de Dagda é reproduzido fielmente no mito do Saint Vaisel, o “Santo Vaso” que os Cavaleiros da Távola Redonda demandaram incansavelmente nas florestas encantadas da Bretanha, chamando-lheSanto Graal.

 

É aí que o Graal assume duplo sentido interligado: como Graal-Consciência ou estado de consciência espiritual, e como Graal-Objecto, representativo dessa mesma condição consciencial demandada cuja revelação ou meta final corresponde sempre à aparição da Virgem Maria ou até mesmo a do Espírito Santo, quando não pelo próprio São Miguel.

Graal tem afinidade filológica com o grego Krater, literalmente, “copo, vaso ou vasilha grande”, onde se misturava o vinho com a água e depois era despejado nos copos dos comensais, pelo que também tem a vez com a raiz Kera, “misturar”. Mas esta mistura também tem um sentido alquímico que a liturgia lhe impôs: o vinho dionisíaco ou crístico junto à água mercurial opera a transformação corporal do Homem, ou seja da Matéria, o que é representado pela Virgem revelada. É assim queGraalKrater e Kera originam as expressões provençais Graalz e Grazale, “prato”, que pela afinidade com o latino Gradalis deu “gradual”, isto é, gradualmente servido ou transmitido, sobretudo na sua função iniciática. Por transformação e adaptação filológica em conformidade a conter algum líquido ou seiva vital que com o Cristianismo se identificou como o Sangue de Cristo, em breve o Saint Vaisel é chamado de Sang Real ou San Greal (Saint Graal), para todos os efeitos significando “vaso”, como o caldeirão de Dagda, o vaso alquímico e até mesmo o útero iniciático da Mulher, microcosmo do maior da Mãe-Terra.

Alguns trovadores medievais (Robert de Boron, Chrétien de Troyes e Wolfram d´Eschenbach) também interpretaram o Graal como uma pedra, chamando-lhe Garal, literalmente, “Pedra de Deus”, assim dando igualmente sentido graálico ao altar da liturgia, como “pedra ou mesa do sacrifício divino”. Vai neste sentido a versão mais esotérica de tendência cristã relativa aos elementos célticos da narrativa do Santo Graal onde se mostra o sentido baptismal, eucarístico e pentecostal da água hermética ou mercurial transformada em vinho da Salvação, símbolo gnóstico da própria Sabedoria Divina que, desfeche a mesma tradição, é quem revela o Graal em Glória junto a Galaaz, epíteto arturiano do próprio Cristo.

pedra santa é aqui, nesta paróquia de Saint-Michel-en-Grève, igualmente alusiva ao culto primitivo às pedras, algumas talhadas em forma antropomórfica, pela população celta da Bretanha, o que foi severamente condenado, com posterior perseguição feroz mas pouco eficaz, nos concílios toledanos dos anos 681 e 682, e no concílio de Rouen em 698, tornando proscritos os veneratores lapidum, “adoradores das pedras”, através do anatema sit veneratoribus lapidum, “anátema aos veneradores das pedras”.

As primitivas lendas cristãs da Bretanha dão José de Arimateia como o portador do “Evangelho do Graal” aí, ou seja, da sua Tradição que disseminou em pouco por toda esta região mágica cedo alastrando à Europa inteira e até chegando ao Novo Mundo, a América, seguindo um itinerário secreto por sete catedrais cristãs desde cedo ligadas ao mesmo Saint Vaisel, como sejam: 1.ª) Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra; 2.ª) Santa Maria Maggiore, Roma, Itália; 3.ª) Catedral do Precioso Sangue, Bruges, Bélgica; 4.ª) Catedral de Santa Maria Maior (Sé Patriarcal), Lisboa, Portugal; 5.ª) Catedral de S. Pedro e S. Paulo, Washington, E.U.A.; 6.ª) Catedral da Cidade do México, México; 7.ª) Basílica do Salvador, S. Salvador da Bahia, Brasil.

A paróquia de Saint-Michel-en-Grève era a Locmikel en Haye, possuindo a raiz loc o significado comum de “lugar”, mas com a especificidade religiosa de “lugar consagrado”, assim se identificando ao temo hindustânico loka, que significa o mesmo.Loc como “lugar” associa-se a Lug-ara, “altar de Lug” ou “lugar do deus Lug”, como o seria aqui. A verdade é que o culto a Saint-Michel propaga-se na Bretanha entre o final do século X e a primeira metade do século XII, destinado a suceder às antigas divindades pagãs ou campesinas às quais os altares druidas estavam consagrados, sobretudo a Lug, o supremo deus “Luminoso” do panteão gallo-celta. É exactamente a partir dessa época que em torno do “lugar consagrado” (Locmikel) fixou-se população fundando paróquia. É também na mesma época que os nomes em loc foram estabelecidos na Bretanha.

 

A Capela do Graal em Tréhorenteuc

 

Lenda Áurea de Jacobo Voragine e os chamados Evangelhos Apócrifos, particularmente os Evangelhos de Filipe, Maria Madalena e José de Arimateia os quais a Igreja não reconhece no seu dogma oficial, falam unanimemente que após a Paixão do Senhor diversos Apóstolos vieram para a Europa, dentre eles Maria Madalena e José de Arimateia, uma trazendo o Vaso do Bálsamo com que ungiu o divino Mestre e que desembarcou no Sul de França, e o outro carregando o Cálice Sagrado que recolheu o Sangue do Salvador e que desembarcou no Norte de França, na Bretanha. Daqui incansável peregrinou até ao Sul do País pregando a Palavra e fundando igrejas. Depois desapareceu, dizem uns que voltou ao Norte e daí passou para a Grã-Bretanha, e outros afirmam que está sepultado na catedral de Nicósia, em Chipre, onde é venerado como São Trófimo.

O facto é que a lenda da Linhagem Sagrada dos Apóstolos tem por finalidade retratar a primitiva diáspora apostólica ao Ocidente europeu para nele implantar e expandir o Cristianismo, facto que aqui na Bretanha se revestiu de mitos maravilhados por sua união à religião original dos celtas. Foi assim que o Caldeirão de Dagda dos sábios druidas se transformou no Santo Graal dos bardos cristãos, cuja prova mais flagrante tem-se nesta igreja de Sainte Onenne de Tréhorenteuc, mais conhecida por Capela do Graal.

 

A decoração e imobiliário da mesma transmite a mensagem da passagem do celticismo ao cristianismo através do mito do rei Artur e do mago Merlim, este representando o sacerdócio druida e aquele a cavalaria cristã, assegurada por paladinos em número igual aos 12 Apóstolos de Cristo, tendo fundado a Ordem da Távola Redonda em cujo centro se colocava a Taça do Graal, símbolo da sua demanda mística cujo fim era o seu encontro com Deus Espírito Santo representado no mesmo Saint Vaisel, o qual lhes concederia a luz da imortalidade espiritual a quem chamavam “Santo Amor” ou “Suma Caridade”. Interessante que Tréhorenteuc significa em bretão “País da Caridade”, e está próximo da floresta mágica de Brocéliand palco da demanda do Santo Graal pelos druidas e cavaleiros deste mais célebre e misterioso de todos os mitos medievais.

Nesta igreja de Sainte Onenne, os seus símbolos celtas estão convertidos em iconologia cristã, mas sem lhes retirar o halo mágico que envolve todo o espaço sagrado, cuja riqueza encontra-se nas diferentes ilustrações evocando as lendas arturianas confundidas com as celtas através dos seus vitrais e pinturas, onde num quadro vê-se a aparição do Santo Graal aos cavaleiros da Távola Redonda que, dizem alguns, era feita de carvalho e de freixo. Ora este último nome, freixo ou onn, em celta, veio a darOneOnnen e Onenne, afinal o nome da santa eremita do lugar.

Num mosaico, vê-se o cerf volant aureolado com o colar crucífero no pescoço, tendo em sua volta quatro leões aureolados. Representam Cristo e os quatro Evangelistas, ou seja, é alegoria da cristianização do povo da floresta de Brocéliand vista atrás do cervo, o qual seguia os seus druidas cujo maior de todos, Merlim, dizem estar aí sepultado e cuja pedra de sepultura aparece entre os leões da pintura.

Numa pintura em vitral, os Anjos seguram o Santo Graal para onde Jesus Cristo verte o Seu Sangue, alanceado no peito pela lança do centurião romano Longino, lança essa identificada aqui à outra lança mágica de Lug, deus supremo do panteão celta. Toda essa cena paira sobre o rei Artur e seus pares que à mesa ou távola comungam da ceia de pão e vinho, prerrogativa celta da Eucaristia cristã.

Num outro quadro, apresenta-se uma cena de amor cortês: num banquete com o rei Artur à cabeça de uma mesa repleta de iguarias, vêem-se donzelas e trovadores tendo à frente de todos Sainte Onenne segurando o bastão de freixo com uma mão e com a outra abraçando um bouquet de rosas, flores do Amor cuja filosofia os trovadores, como fiéis do mesmo, divulgaram por toda a Europa junto das cortes e do povo.

Há ainda a pintura alegórica do lugar próximo do Vale sem Retorno, lugar das últimas predições de Merlim quanto ao desaparecimento da religião celta até então a única que havia, e também o lugar onde a fada Morgana aprisionou os seus amantes infiéis dentro de uma muralha de fogo guardada por um gigante barbudo armado de uma maça, fogo esse saído de dois dragões que vomitam chamas um ao outro: o dragão branco do Bem, e o dragão vermelho do Mal. Por fim, aparece na cena Lancelot du Lac, o “melhor cavaleiro do mundo”, que vence as provas colocadas sobre o seu caminho e liberta os prisioneiros.

 

Esta igreja única no seu género, não deixando adivinhar exteriormente a sua riqueza interior, emana uma permanente mensagem de tolerância aos seus visitantes. Foi para esta pequena comuna que em 1942 veio desterrado o abade Gillard, porque contrariava o clero com as suas ideias heterodoxas que raiavam a «heresia» do mundo esotérico ou iniciático, muito particularmente quanto à Linhagem Sagrada dos Apóstolos em que acreditava. Ele decidiu reconstruir esta igreja românica, e o primeiro vitral chamado da “Távola Redonda” foi realizado e posto em 1943 por um pintor de Nantes, Henri Uzureau. A partir de 1945, o abade foi ajudado por dois prisioneiros de guerra alemães, o ebanista Peter Wissdorf, que fabricou os bancos e a abóbada de madeira, e o artista pintor Karl Rezabeck, que realizou quatro quadros representando o mundo celta, a lenda arturiana e o cristianismo. Os vitrais, os quadros e o mosaico do “Cervo branco com colar de ouro” criado por um artista contemporâneo, Jean Delpech, representam os vários elementos desses três mundos, unificados harmoniosamente pelo abade. Para isso, ele encontrou um elo comum entre eles: o Santo Graal. Este é frequentemente representado, e por isso esta igreja também tem o nome de capela do Graal. Actualmente, o abade falecido está sepultado sob a igreja.

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Bretanha mágica (deuses, druidas, templários, mitos e lendas) – Por Vitor Manuel Adrião


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